Somos operários.

Você se desdobra, estuda, trabalha, engorda e adoece. Quase morre de enxaqueca e dor nas costas, todo dia é dia para perder a paciência e voltar a si, mais de dez vezes. Não desiste, sabe que um dia será recompensado, sabe que um dia será valorizado pelo seu esforço; mas logo se da conta que na verdade não desiste, simplesmente porque sabe que não têm ninguém para fazer por você. E aí, quando tudo são flores, aparecem os invejosos. Afinal, o que é mais um dia de suor na vida de quem ‘nasceu para ser operário’?

Muito prazer, meu nome é Otário; como diria Humberto e, ainda com ‘O’ maiúsculo. Quando você vê, já está no mesmo barco que eu. Sentado atrás de uma mesa de escritório, com seu computador e seus papéis, o telefone escandaloso que toca sem parar, caixa de emails lotada e o ‘chefe’ (ou algo semelhante a isso) te olhando de cara feia, simplesmente porque acha, imagina com sua mente peculiar, que você nunca faz absolutamente nada, tudo isso ao segundo toque não atendido do seu maldito telefone. Essas pessoas definitivamente deveriam ser estudadas.

Porque é que nos esforçamos tanto?

Se você algum dia, algum momento, já parou para se questionar isso, se deparou com a constatação de quê fazemos porque se não fôssemos nós, ninguém faria. É claro que todos nós temos como objetivo, chegar em algum lugar, ter estabilidade, uma vida tranquila, mas não podemos deixar de levar em conta que se nada do que nos matamos para fazer hoje der certo, vamos trabalhar e trabalhar, pelo resto de nossas vidas, simplesmente e incansavelmente, apenas para sobreviver.

Mas isso não nos impede de viver. Pelo menos, não deve impedir. Devemos fazer o que gostamos, e já que está aí trancafiado em um escritório e não há saída agora, seja o melhor no que você faz ou tente se esforçar para isso. Desculpe a ignorância mas, ninguém foi até a sua casa te oferecer emprego, você correu atrás, se não está do jeito que você quer ou do jeito que é certo, peça mudanças, diga que não está satisfeito e se nada puder ser feito, saia. Há novas oportunidades, novos caminhos, novas barreiras e você sempre estará frente a frente com tudo isso.

Você será operário por muito tempo, e as vezes o será pela vida toda. Quando digo operário, digo aquele que suja as mãos, que faz o trabalho ‘sujo’, pesado, que tem que correr atrás das coisas, para que outras pessoas fiquem com a maior parte da recompensa pelo seu esforço. Você aprenderá muito sendo operário, bem mais do que quem já nasce para ser patrão.

Quem vem de baixo aprende que todos são iguais, não destrata um companheiro de trabalho, quanto menos um superior, e desde cedo aprende a dar valor ao seu esforço, ao esforço dos outros, ao pouco que ganha e a tudo que conquista com esse ‘pouco’. Se caso algum dia esse mero operário desfrutar de um cargo superior, ele não será um chefe, não será um patrão, muito menos um carrasco, ele será um líder. Da mesma forma é quem constrói sua própria empresa, sua própria carreira. Quem um dia foi operário e subiu de cargo, cumprimenta seus funcionários pela manhã, entende suas necessidades e sabe o verdadeiro valor de cada um, e que nada seria sem o esforço dos meros operários.

Mas você ainda não é o chefe.

Você ainda tem que aguentar a cara feia do mesmo, sem motivo de todas as manhãs, fingindo que você é invisível, a não ser quando é o seu dia de sofrer, nesse dia você está em todos os lugares. E a cara feia é sem motivo porquê, quem, em sã consciência, têm vários zeros na conta bancária, um carro novinho, uma casa quitada e linda, nunca se preocupou com nada; quem, você me diz, quem ficaria de cara feia?

E além do mais você ainda tem que se virar com os seus problemas diários. Isso porque, a empresa está largada, tudo por causa da soberba do ‘chefe’. Você tem múltiplas funções, desvio de função, excesso de trabalho e além do mais têm que lhe dar com os desentendimentos entre os colegas de trabalho, na difícil relação do administrativo com as relações humanas. Aguentar os conhecidos ‘puxa-saco’ já faz parte da rotina, são os conhecidos intocáveis. São típicas coisas que só acontecem em locais de trabalho comandados por patrões que herdaram o poder, ou que não se esforçaram para chegar aonde estão; como disse anteriormente, salvas as exceções, que na minha opinião e pelos exemplos que tive são poucas, mas enfim, opiniões são de cada um.

E no fim do dia, cansado mas, com sentimento de dever cumprido, você ainda corre o risco de levar uma cutucada por demorar por atender o telefone, ou por conversar fora do tom em seu horário de almoço, ou qualquer outra coisas que nossos amiguinhos intocáveis vão decidir usar para te atingir, mesmo você andando na linha e fazendo o seu trabalho, mal remunerado, tedioso, desgastante, que seja, mas bem feito, e muito bem feito diga-se de passagem. Dizem que isso é inveja.

Eu nunca entendi muito bem o conceito de inveja. Aliás, nunca tive tempo para ficar sentindo inveja. Se é que eu sei realmente o que ela é. Seria ela o desejo de ter o que o outro têm por seu único e legítimo esforço, sem ter de realizar o mesmo? Ou, seria apenas desejar a vida, o dinheiro, as coisas dos outros, de forma que isso realmente chegue a fazer mal, e eu não estou falando de quem é invejado não, tô falando de quem inveja os outros; o maior prejudicado nessa história é o invejoso, tudo porquê ele ainda está parado, lá em baixo, te olhando, enquanto você continua crescendo. O segredo é não olhar para baixo, assim você não têm medo da altura. Mas enfim, eu continuo não querendo saber o que é inveja, não precisa me explicar.

É eu sei, é desesperador. São muitas as coisas que me fazem querer, pegar quem eu amo e sumir, vender alguma coisa na beira da praia, viver para sempre com pouco, mas viver, quem sabe. Mas há somente uma coisa que me faz ficar: a esperança de um futuro melhor, para mim ou para todos nós, operários. Eu sei, isso é bem clichê, mas se você não está acostumado, acostume-se.

Afinal se não existissem os operários, quem é que sujaria as mãos?

Se não fosse você, quem é que faria?

Saiba e mostre o seu valor.

Douglas Chicarelli

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(Imagem: Operários de Tarsila do Amaral)

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